11 de Abril de 2009

Desambiguação

Queridos leitores, anunciamos que o "Retalhos sem Tempo" cumpriu seu propósito.

Não se trata do sepúlcro deste sítio, mas a simples oficialização da paralização de postagens. A própria não necessidade de escrever aqui, justifica sua existência. E assim será. O Retalhos sem Tempo continuará e nós também. Mas agora não por aqui.

Cada um de nós há tanto já colore outro lugar:

23 do 03 - Aline Chaves

O Quarto Branco - Zorbba Igreja


Se você já nos lia, continue.
Nós não mudamos, só o endereço.

16 de Janeiro de 2009

3000!

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Parabéns a todos nós!

Obrigados a todos!

4 de Janeiro de 2009

Dia de outono e de resposta

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Todo o dia sentava na mesma cadeira enviesado à mesma mesa. Um braço pingente balançava a brasa que lhe parecia um sexto dedo, o outro levava a gole a única companhia e, uma hora antes do ocaso, estava a observar o horizonte como se entendesse todos os milímetros que o sol percorre até a queda. Engolia fumaça a lhe curar a ânsia, e sorvia o líquido dourado como elixir para o bem-estar.

Oferecia conselhos a quem pudesse entender, e tinha sempre uma história que nunca vivera a contar com saudade. De todos tão familiar, que era sua presença rotina de muitas conversas e poucos amigos. Para os escárnios e pilhérias, denodo e cinismo. Impávido naquele trono de vivência e cinzas, o tempo lhe castigava com o peso de tantos sonhos e a velocidade dos pensamentos quebrados.

Tinha lembranças tristes nos sorrisos, e nas palavras a intensidade das paixões. No olhar nenhum arrependimento. Professor de amores, profeta de desilusões, parecia saber e entender tudo, explicava física e poesia, resolvia equações com tampas de garrafa e grafava as mais belas histórias em minúsculos guardanapos. Era austero. Tão precisos eram os colóquios, que alguém jamais precisou de dois. Era feliz e livre na própria solidão.

Numa tarde gris olhou o garoto que, sempre com o cintilar farto de admiração e medo, esgueirava-se para ouvi-lo, e em alto exaspero disse: Escreve! Escreve, e não temeremos o evanescer.

O menino partiu desconcertado. Tentou de todo ler sentido no postulado, mas não chegou resposta. Por longos anos fez o mesmo percurso a observar sempre a impassível figura, já grisalha, de rústica nobreza sob os olhos secos e atentos. De furto ouvia maravilhas desenhadas em ótica única, que escrevia e contava o ébrio devaneador. E quando publicou o primeiro conto, o bardo brindou ao ar sua passagem. Sentiu o respaldo no gesto e respondeu em sorriso.

Os anos passavam e a figura do ermitão de verbos se combinava à paisagem e quase não mais se fazia notar. Mas naquele dia o sol se recusou a pôr-se, a lua apareceu tristonha, brilhavam pequenas estrelas e o céu – crepúsculo de Monet – chorava suave chuva. O curto caminho cheirava jasmim e o vento frio corria lento e pesado, as árvores lançavam suas folhas como dias de outono. Um leve pesar nas faces conhecidas, todo o som parou em dó, e na calçada não sentava mais o guardião de vésper.

O vazio da cadeira e do copo lhe mudaria o rumo. Lembrou então das únicas palavras que ouviu em uma vida e resolveu que escreveria o mundo da maneira que crescera ouvindo e sonhando. Sentou à mesa, acendeu o cigarro, encheu o copo, fitou o horizonte com dor úmida, tragou esperança e saudou em brado ao último homem só, o poeta das cinco da tarde.
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1 de Dezembro de 2008

Sinestésico



Publicado também em O Quarto Branco

7 de Outubro de 2008

sobre o hífen



Éramos assim

Quase riso ou quase nada.

E quem sabe um dia

Seríamos enfim

Um pôr-do-sol de madrugada.

20 de Agosto de 2008

Dia de frio e de abraço

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Os sapatos ganhara dum sábio senil, um errante que grasnava erudição entre tragos, e que há anos o impressionara com palavras belas onde ele achava sentido e perdia o tento. As calças granjeou do Doutor, ilustre de porte altivo e elegância impecável, de carisma nos olhos e sorriso galante, mais rico e fino homem que conhecera e no qual imprimiu seu almejo. A camisa azul foi herança do pai, lavrador pobre, mas de rígida ética e valores inestimáveis dos quais era impossível olvidar, estavam em tudo, do acordar ao dormir; foi fiel ao vício até o fim do fígado, deixou ao filho sina inteira, duas mudas de roupa e um relógio de plástico que ganhara no jogo.

Vestia respeito abotoado com zelo, fineza engomada com sonho e calçava poesia lustrada em lágrimas. Rezou ao relógio no oratório, pediu benção à velha mãe, cruzou a mão direita no peito em sinal de fé e partiu.

Pouco estudou e cedo o pai percebera que a labuta não lhe fazia jus, que ao filho fora delegado apenas o dom de sonhar. Todo dia antes do bar, punha o menino à porta, a estudar a gente, a prescrever futuros. Quando só a mãe lhe restou, decidiu que lhe era pequeno o passeio, que o mundo carecia da diligência que o pai o ensinara e de toda a devoção que a mãe o exigira. E todos os dias saía antes do sol, munido de sorriso e perseverança.

Buscava em todo o gentio respostas, olhava-os, escrutava-os, lhes sorria e ninguém o notava. Às vezes lhes ensaiava um cumprimento e quando correspondido o peito enchia e os olhos brilhavam. Vagava as ruas à procura do significado que a mente hígida nunca entendera. Buscava em cada coche um amor sentado à janela pronto a responder seus acenos desesperados, sempre com o ingênuo riso de estampa.

Hoje havia ganhado o dia, já arrecadara três meneios e cinco sorrisos, um a mais que ontem. Mas hoje fazia frio, relampejava sem nuvem e ele completava vinte anos de puro existir. Resolveu que encontraria enfim um amigo; ouviria uma pergunta qualquer; que falaria a alguém que fingisse se importar; que as pessoas eram por demais tristes e que abraços eram bálsamo. Estendeu os braços tão largos quanto o sorriso aos primeiros passos no canteiro. E por dezenove intentos contados fora rechaçado.

Os olhos lacrimavam a dúvida da sina que a calçada um dia mostrou. O trovão o chamou de volta, o relâmpago mostrou o caminho, na porta, a velha mãe lhe deu um longo abraço de presente.

Hoje havia ganhado o dia, arrecadara cinco sorrisos, um a mais que ontem; e um abraço, um a mais que a vida inteira.
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29 de Julho de 2008

Dia de tudo e de erro

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Acordou cedo, fez o café, pôs a mesa. Despertou-a com um beijo e um sorriso. A preguiça esvaía em bocejo. Preparou-lhe o banho, escolheu-lhe a roupa para o dia, pediu-a que usasse seu melhor sorriso, pois fazia sol. Guiou-a ao trabalho, desejou sorte e beijou-lhe a boca.

Ao meio dia providenciou o almoço, peixe à delícia, cardápio para dias bons de amor. Observou-a degustar em majestade cada porção. Falou-lhe amenidades, planejava o fim de semana: praia e mar, descanso e carinho. O que lhe faltava em dinheiro sobrava em dedicação.

À noite sushi e cinema. Comprou-lhe um bom livro, fez-lhe tão belo verso, pintou-lhe o rosto em aquarela e óleo, presenteou-a a lua. Lavou as louças, encheu os litros, limpou a casa. Ouviu com os braços os lamentos da rotina, aconselhou tolerância e afagos. Amou-a como no primeiro dia, velou o sono como no último. Ninou-a com paixão e os ventos noturnos espalharam ao mundo a melodia.

Era articulado e bonito, companheiro para noites frias e formais, amante pungente para as noites de labaredas. Ensaiava sobre tudo, atuava qualquer coisa. Tinha braços fortes para o medo; a voz grave e macia para o conselho; o sorriso certo para a dúvida; uma sonata para cada dança; a cor perfeita para cada sentimento de pincelada imprecisa; a poesia certa para cada dor. O beijo infalível para tudo e a pele quente para sempre.

Olhou-o enquanto dormia, era gentil até no sono. Lembrou de quando criança, da dúvida do amanhã e de toda a sorte da vida sem deslize. Constatou que era como sonho, era tão pleno, tudo o que queria. Era perfeito. Percebeu que já tinha tudo, que nada mais podia pedir. Esboçou ao vento um riso de contentamento; verteu uma lágrima, de puro contentamento e partiu.

Levou as lembranças e um filho; deixou um bilhete e a vida toda. Trocou o tudo, pela simples chance de errar.
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15 de Julho de 2008

2000!

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Obrigados a todos os nossos leitores!


Obrigados!

6 de Julho de 2008

Bodin

Sou bodin sim!
Digo com orgulho
e sem estorvo.

Tenho debaixo
do queixo a barba.
E debaixo do caralho
dois quilo de ovo.

27 de Junho de 2008

Dia de espera e de panquecas

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Era senhor de si e do tempo, punha o risco à prova, o corpo em tentativa e muito erro. As cicatrizes a escorrer aquele amor rejeitado. Já havia amado o tudo, restou além do eco de dor, a esperança da mão estendida e do sorriso a tudo apagar. Divertia-se em ser rude, o mais amargo que alguém seria. Jurou a si mesmo o desamor eterno. E pobres as tolas em seu caminho, alimentava-se de corações inscientes, anátema de amores.

Apesar do desprezo havia nobre donzela que se mostrava imune ao seu verbo venenoso. Cujo coração a ele pertencia, mas que nunca pôde estilhaçar. Olhava-o partir em ponteiro alto, a desafiar o equilíbrio e a lógica. O peito apertava. Aguardava na janela o ronco do motor, e ansiava pela voz áspera e o laudatório resmungo. E da noite que não sentiu a fumaça do cigarro na rua, uma lágrima mostrou o pior.

Os destroços da moto misturam-se aos tantos relógios do pequeno ambulante. E o franzino vendedor que oferecia tempo também poderia alienar sorte. Ele de tempo sem medida agora trazia ponteiro cravado na espinha a marcar-lhe a vida todos os minutos. O pequeno traço morou onde médico ou curandeiro pôde ousar o toque, privou-lhe o andar, mas lhe proveu a vida. Ele de espírito livre, agora tinha o corpo preso. E quando sua rabugice havia afastado a todos, e seu esperar resumiu-se a um telefonema uma vida atrasado, surgiu-lhe pequena dádiva de olhos cintilantes.

Cuidava-lhe com o esmero de lapidária, limpava-lhe o rosto e os lábios, enxugava-lhe as lágrimas. Punha-o a cama ou ao passeio na renitente cadeira rolante. Os olhos lhe brilhavam a cada bobagem e o sorriso lhe iluminava as sandices. Ele como rotina ressentia-se do tempo, do amor e do viver. Rangia os dentes aos transeuntes, amaldiçoava os andarilhos, e mais ainda os preguiçosos. Jurava ódio a todos os amores, derramava lágrimas e lamentos, às vezes esboçava tímido sorriso aos meneios de aprovação. E sempre com dura palavra escarrada desmantelava a pequena em esperança.

Dava-lhe o tempo, e era tão parca a troca, mas a ela bastava. Às vezes ganhava um aceno disfarçado, ou sorriso enviesado, e por duas vezes o coração cavalgou um tenro e inebriante obrigado. A mera presença lhe enchia o dia, e todo amor que ofertava, a fazia leve, e era assim todo seu, e nada precisava esperar. E todos esperavam algo: a mãe por um milagre; o pai o sucesso do tratamento. Ele que o ponteiro lhe devolvesse o tempo e aquele telefonema. Era a única a não esperar. Havia esperado vida inteira para caber em outro. Ansiava apenas o dia seguinte, para pergunta-lhe sobre sonhos. E desejava em prece que mesmo por culpa ou pena a retribuísse o sentimento oferecido.

Ria sozinha das bobagens e resmungos, encontrava carinho nos solavancos, e nos negados gestos. Magoava-se apenas de não ser alvo daqueles reclamos em despeito. Dormia em seu cheiro e acordava por lembrança. Preparou-lhe as panquecas preferidas, as que lhe rendia sempre um pequeno sorriso. Do quarto escapavam doridos soluços. Estupefata parou à porta, hirta. Ele de olhos marejados e rijo cenho, a recebera em pé. O ponteiro retrocedera, as pernas responderam: às esperas, ao milagre, aos remédios. Ela de imensa alegria e olhos submersos; de dura e profunda tristeza, disse em tom de perda e voz oscilante: – Agora tens teu tempo de volta.

Ele ponderou a vida, passado e futuros, no bater da pálpebra. Baixou a cabeça e bruscamente num grito de dor e certeza entalhou o ponteiro de volta à espinha. As pernas desistiram do prumo, o corpo entregou-se à cama. E oferecendo lágrima e riso disse: – Eu quero panquecas!
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18 de Junho de 2008

Para os ventos de maio e as borboletas de junho

o amor e a borboleta - Bouguereau - 1888





E quando ele me olha e eu fecho os olhos.
É quando ele me vê e eu vôo em paz.

4 de Junho de 2008

Um título por favor...

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Eu toda predicados, cheia de adjetivos, limitei-me a dizer:

- Ei sujeito, tem uma vírgula entre nós dois.

23 de Maio de 2008

para passeios em montanha russa

detalhe de Judith decapitando Holofernes - Caravaggio - 1598


Chico me entenderia.
Eu entenderia Caravaggio.
E você, entende isso?

19 de Maio de 2008

Fandango suicida

11 de Maio de 2008

Pés gelados e Alecrim

4 de Maio de 2008

Bálsamo 08

29 de Abril de 2008

Todo o meu amor

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Guardei aquele ingênuo sentimento no fundo do peito e agüei de lágrimas. Cresceu forte, belo e frondoso, sorvendo as boas lembranças. E agora que madurou na solidão e floresceu saudade, eu te ofereço o que sempre foi teu, tudo aquilo que tenho... Todo o meu amor!


É?
E o que eu compro com isso?

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17 de Abril de 2008

Capítulo 3

O Som do Fim




Os músicos - Caravaggio
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Das horas desesperadas e de esperar sem fim. Das certezas absolutas e da convicção volátil. De tão instável, previsível sempre. Outros caminhos, os mesmos passos. Ou ao contrário, tanto faz. Do convite feito, aceito pela solidão.

Ajne continua seus afazeres habituais. As mãos ocupadas. A mente em outro lugar. Um suspiro atrás do outro, como um balde atirado ao poço. O alívio. A paz. Impossível concentrar-se em fiar. O fio desigual denotava a ansiedade. Mas dentro dela, a pior companhia era a certeza. Ele não voltaria.

Nunca encontraria a Pedra do início novamente. Baeh perdera os olhos na guerra. Queimaram suas retinas com uma lente de aumento; a última coisa que viu foi a luz do sol. Depois perdeu-se. Era menino quando do ocorrido. Perdeu a vista por ser um excelente batedor. Apontava o invasor a imensos quilômetros de distância. Como se predissesse. Meio conhecedor das horas não chegadas.

Os anos não foram lhe foram gentis. Passou a esconder a dor e a cegueira. De longe, e muitas vezes, de perto também, não havia como distingui-lo de quem enxergava com perfeição. Esperto, Baeh conhecia cada viela de sua cidade, como as marcas de suas mãos ou as linhas do rosto de sua avó. Depois da luz, nenhuma lágrima. A solidão era sua escudeira e o negrume, desde então, seu batedor.

Cercado pelo mundo todo, sempre chamava atenção. Era boa companhia para longas conversas, para noites inteiras. Era músico. Tocava de olhos fechados. Encantava a cidade com seu som. Mas sempre que alguém descobria que não podia ver, Baeh mudava de bairro. Até não sobrar lugar algum em sua terra. Mudou-se então.

Conhecia a estrada, mas nunca ultrapassara os portões da cidade vizinha. Distinguia seus sons. Salivava com o cheiro de pão fresco por trás dos muros. Empurrou devagar uma pesada porta de madeira e ferro. O ranger das dobradiças anunciavam a decepção, como uma canção de lamento. Uma das longas canções de lamento que ele sempre escondera.

O mercado cheio com todas as cores que ele não podia ver. Funcionava a pleno vapor. Vendia-se de tudo. Comprava-se na mesma proporção. Baeh achou de exibir sua música. Fechou os olhos e pôs-se a ser som. Cada nota saída do instrumento tinha a forma de uma lembrança. Baeh via sua música. E apenas isso lhe era permitido. Mas o mercado não tomou conhecimento da delicada arte oferecida. Todos estavam mais preocupados em abastecer suas despensas para o inverno. E em seus corações, a estação seguinte já esfriava a cortesia. Nada de polidez para o visitante que ofertava música. E por diversas vezes sua seqüência era cortada por um esbarrão; alguém com uma cesta enorme e pesada.

Ninguém percebeu que era cego. Nem notou que estivera ali. Baeh começou a duvidar da sua arte. Perdeu a música. Calou-se. Decidiu buscar novos ares mais uma vez.
Caminhou a esmo por estradas que não conhecia. Sentiu cansaço e fome. Saudade de muito tempo atrás. Tateava um rumo, mesmo sabendo ser em vão.

Assim, por trás da sebe furta-cor que ele não via, onde prendeu a mão, encontrou uma pedra. Nela, inscrita em espiral, lia-se: “o início da história...”.


28 de Março de 2008

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27 de Março de 2008

Capítulo 2


A Estrela


A Estrela – Carta XVII do Tarô – Sugere a boa sorte. A esperança. O amor. É de fé que se constrói um novo lar...

Metamorphosis - Sulamith Wulfing

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Suspirou de dor e cansaço. Sentou numa pedra, a que não havia percebido antes, e chorou.

Não se sabe como aconteceu, nem quando. Talvez o suspiro quebrado. Naquele instante em que se prende o ar. Quando o peito dói, quando dá alívio. É provável que tenha acontecido quando de olhos fechados, a fim de desfazer a visão embaçada que tinha. A Terra sem tempo nasceu da lágrima e do sangue de Ajne tocando o chão. Quando seu queixo pingou onde o filete vermelho descia-lhe a perna. No ponto úmido e rubro. Ao pé da pedra, nasceu, assim, um caule mínimo, com folhas menores ainda. E cada uma trazia consigo as cores do mundo novo. O vento veio e trouxe a primeira nota de aconchego. O silêncio cantava a temperança.

Perdeu-se enfim, e encontrou a paz.

Ajne dormiu embalada pela Caridade. A primeira a chegar ao novo lar. Seu rosto estampava um riso simples, singelo. O riso do recomeço. Ajne já não sangrava. Deixara os dias antigos fora do véu.

Ao abrir os olhos, tantas cores e luzes, que não pôde continuar e fechou-se mais uma vez. Com os olhos cerrados, sentiu o vento dançando com seu vestido. Ria da brisa entre seus dedos, por trás da sua orelha. Ria por não saber onde estava. Ria para não chorar. E se o fizesse, naquele instante, seriam lágrimas doces. Por acreditar-se só e perdida, ria também por desespero. Outro sopro então. E o medo, em rodopio, se desfez. Já não era a mesma. Nada carregava consigo. Tinha, apenas, a certeza absoluta de finalmente estar em casa. Luz nas mãos; cores infinitas nas pontas dos dedos e, amor e música faziam de seu peito carrossel.

E veio a Fé. Lenta e firme. Dedicada e fiel. Juntou-se a Caridade. Agora Ajne tinha a quem dar as mãos. Despiu o vestido sujo. E junto com ele, a angústia. Foram as três ao córrego que surgira. Onde a segunda lágrima caiu. Fé e Caridade banharam Ajne. A água lavava as dores e levava qualquer resquício de materialidade. Já não era envoltório. Livre do casulo que nem sabia ter. Ajne era quem sempre deveria ter sido, A Fada. Elas, as três Graças, trouxeram mais música à correnteza que cantava.


23 de Março de 2008

Pulsava

17 de Março de 2008

Capítulo 1


A Torre


A Torre – Carta XVI do Tarô – Sugere o fim. A destruição. O desastre. Mas há quem acredite no recomeço...


Titânia dormindo - Arthur Rackham

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Era madrugada. Quase sempre é essa a lembrança. Já faz tanto tempo, que poderia ser noite, ou mesmo, ter o sol alto, de uma tarde quente. Mas em dias de chuva forte, os que não dançam gostam de lembrar como Ajne chegou a Terra sem tempo. Nesses dias, a versão mais ouvida é a da hora da iminência.

Não havia orvalho pesando nas folhas quando o véu se abriu. Não há certeza nem sobre a existência das folhas. A espera. O que ainda não aconteceu. A matéria que dá forma ao porvir.

Deixara a certeza na cama desfeita; a esperança na porta que não teve tempo de fechar; o amor nas cartas não enviadas. Trouxe a agonia no bolso direito; o medo, no esquerdo; a solidão na barra do vestido. O sangue que lhe escorria quente, correria frio em suas veias. Nada mudaria as horas passadas.

Antes. Escolheu com primor a roupa, o perfume – de flor de laranjeira -, as palavras que seriam ditas. Calculou as reações. Ensaiou até a exaustão as caras e bocas que faria. Não precisou de nada disso. Perdeu. Simplesmente.

Ele. Rude. Acreditava-se detentor da razão, do poder e dela. Não era digno do amor oferecido. Tomou de assalto o que queria. O que lhe era importante. Ela sempre que fora uma boneca. Obediente, calada e decorativa. Agora não mais.

Sem trilha alguma, o campo era escuro o suficiente para acreditar que permaneceria perdida. A névoa fazia trança em seus pés, escondendo raízes e deixando seu vestido mais sujo a cada queda. Nenhum cavalheiro. Não se tratava de uma cantiga de roda. Não conseguia mais correr. Não tinha mais passos, nem determinação para isso e, vagava buscando caminho nenhum. Não tinha mais casa. Ou qualquer outro lugar que lhe parecesse um lar. Choraria, se isso mudasse algo. Mas nenhuma lágrima aqueceu seu rosto àquela hora.

Ajne fugia de uma lembrança. A que doía mais que todas as outras juntas. Não havia mais nada que pudesse fazer. Tão vívida que lhe sugara o pulso. Por mais que corresse, a lembrança continuava como um maldito filme, repetindo-se sempre, e cada vez mais nítida, em seus olhos abertos e cansados. Até que por um segundo não viu nada. Parou. O mundo. A dor. O tempo.

E finalmente estava em casa.







16 de Março de 2008

Sobre aves e arbustos. (Não só de sombra vive o pássaro)

11 de Março de 2008

1000!



Obrigado a todos os nossos (3 ou 4) leitores!
Esta é uma marca importante para nós.

Obrigado!

10 de Março de 2008

Super-ego•Ego•ID


Experimento...

1 de Março de 2008

Minha chuva


para Frank Miller

27 de Fevereiro de 2008

Era uma vez o final feliz que não houve

Primavera - Botticelli (Flora em detalhe)
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A seda dançando nas cerdas do pincel. Cheiro de tinta nas flores que não conheço.


Fé nos olhos. Esperança no peito aberto.


Eu, só, de achar bonito. O vestido que nunca vou usar.


24 de Fevereiro de 2008

Fora d'órbita



18 de Fevereiro de 2008

A dona dos segredos

A caixa de Pandora - Waterhouse
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Eu de todo o amor sem fim. Enfim livre. Tão sua, sem nada que me pese.

Entregue como as boas notícias. Como o corpo a cova. Como quem ainda não nasceu. Em paz.

Eu gosto do seu medo. E do gosto que ele tem.

10 de Fevereiro de 2008

Irracional imperfeito