20 de agosto de 2008

Dia de frio e de abraço

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Os sapatos ganhara dum sábio senil, um errante que grasnava erudição entre tragos, e que há anos o impressionara com palavras belas onde ele achava sentido e perdia o tento. As calças granjeou do Doutor, ilustre de porte altivo e elegância impecável, de carisma nos olhos e sorriso galante, mais rico e fino homem que conhecera e no qual imprimiu seu almejo. A camisa azul foi herança do pai, lavrador pobre, mas de rígida ética e valores inestimáveis dos quais era impossível olvidar, estavam em tudo, do acordar ao dormir; foi fiel ao vício até o fim do fígado, deixou ao filho sina inteira, duas mudas de roupa e um relógio de plástico que ganhara no jogo.

Vestia respeito abotoado com zelo, fineza engomada com sonho e calçava poesia lustrada em lágrimas. Rezou ao relógio no oratório, pediu benção à velha mãe, cruzou a mão direita no peito em sinal de fé e partiu.

Pouco estudou e cedo o pai percebera que a labuta não lhe fazia jus, que ao filho fora delegado apenas o dom de sonhar. Todo dia antes do bar, punha o menino à porta, a estudar a gente, a prescrever futuros. Quando só a mãe lhe restou, decidiu que lhe era pequeno o passeio, que o mundo carecia da diligência que o pai o ensinara e de toda a devoção que a mãe o exigira. E todos os dias saía antes do sol, munido de sorriso e perseverança.

Buscava em todo o gentio respostas, olhava-os, escrutava-os, lhes sorria e ninguém o notava. Às vezes lhes ensaiava um cumprimento e quando correspondido o peito enchia e os olhos brilhavam. Vagava as ruas à procura do significado que a mente hígida nunca entendera. Buscava em cada coche um amor sentado à janela pronto a responder seus acenos desesperados, sempre com o ingênuo riso de estampa.

Hoje havia ganhado o dia, já arrecadara três meneios e cinco sorrisos, um a mais que ontem. Mas hoje fazia frio, relampejava sem nuvem e ele completava vinte anos de puro existir. Resolveu que encontraria enfim um amigo; ouviria uma pergunta qualquer; que falaria a alguém que fingisse se importar; que as pessoas eram por demais tristes e que abraços eram bálsamo. Estendeu os braços tão largos quanto o sorriso aos primeiros passos no canteiro. E por dezenove intentos contados fora rechaçado.

Os olhos lacrimavam a dúvida da sina que a calçada um dia mostrou. O trovão o chamou de volta, o relâmpago mostrou o caminho, na porta, a velha mãe lhe deu um longo abraço de presente.

Hoje havia ganhado o dia, arrecadara cinco sorrisos, um a mais que ontem; e um abraço, um a mais que a vida inteira.
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6 comentários:

Kyo disse...

Final muitíssimo emocionante.

Fernanda disse...

Que personagem puro e fascinante, esse! Na verdade, no fundo, no fundo, ele não pe um pouquinho de todo mundo?
Será que não existe mais alguém nesse mundo que também conta sorrisos, acenos e abraços como prêmios e objetivos de viver?
E será isso sonhar?Ou é uma parte da realidade que as pessoas ignoram?
Prefiro pensar que sim. Prefiro pensar que se eu abanar, alguém vai me abanar de volta.Se eu sorrir, amanhã alguém pode sorrir de volta, diferente de hoje.
Quero pensar que amanhã, alguém vai me abraçar mais apertado que me abraçaram hoje.
Quero pensar que eu posso fazer isso por alguém.

Obrigada por esse texto lindo.

Laís Romero disse...

Agora como leitora: é como se todos nos sentíssemos assim vezenquando...

Fernanda disse...

Gente, pratiquei um pouco o que esse personagem faz. E não é que deu bons resultados? Vou sorrir ainda mais amanhã!
Zorbba, obrigada pelas sempre gentis palavras no meu blog.
Aline, xu, kd vc?

Beijos!

Anum disse...

mandando bem nas suas crônicas.
Gostei muito dessa

Eduardo Trindade disse...

Tocante isso, sabia?
Bonito, por todo o sentimento que encerra, e dolorosamente trágico, pela sina de contar os carinhos como quem conta esmola.
Gostei muito deste espaço, passarei a acompanhá-lo.
Abraços!