27 de março de 2008

Capítulo 2


A Estrela


A Estrela – Carta XVII do Tarô – Sugere a boa sorte. A esperança. O amor. É de fé que se constrói um novo lar...

Metamorphosis - Sulamith Wulfing

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Suspirou de dor e cansaço. Sentou numa pedra, a que não havia percebido antes, e chorou.

Não se sabe como aconteceu, nem quando. Talvez o suspiro quebrado. Naquele instante em que se prende o ar. Quando o peito dói, quando dá alívio. É provável que tenha acontecido quando de olhos fechados, a fim de desfazer a visão embaçada que tinha. A Terra sem tempo nasceu da lágrima e do sangue de Ajne tocando o chão. Quando seu queixo pingou onde o filete vermelho descia-lhe a perna. No ponto úmido e rubro. Ao pé da pedra, nasceu, assim, um caule mínimo, com folhas menores ainda. E cada uma trazia consigo as cores do mundo novo. O vento veio e trouxe a primeira nota de aconchego. O silêncio cantava a temperança.

Perdeu-se enfim, e encontrou a paz.

Ajne dormiu embalada pela Caridade. A primeira a chegar ao novo lar. Seu rosto estampava um riso simples, singelo. O riso do recomeço. Ajne já não sangrava. Deixara os dias antigos fora do véu.

Ao abrir os olhos, tantas cores e luzes, que não pôde continuar e fechou-se mais uma vez. Com os olhos cerrados, sentiu o vento dançando com seu vestido. Ria da brisa entre seus dedos, por trás da sua orelha. Ria por não saber onde estava. Ria para não chorar. E se o fizesse, naquele instante, seriam lágrimas doces. Por acreditar-se só e perdida, ria também por desespero. Outro sopro então. E o medo, em rodopio, se desfez. Já não era a mesma. Nada carregava consigo. Tinha, apenas, a certeza absoluta de finalmente estar em casa. Luz nas mãos; cores infinitas nas pontas dos dedos e, amor e música faziam de seu peito carrossel.

E veio a Fé. Lenta e firme. Dedicada e fiel. Juntou-se a Caridade. Agora Ajne tinha a quem dar as mãos. Despiu o vestido sujo. E junto com ele, a angústia. Foram as três ao córrego que surgira. Onde a segunda lágrima caiu. Fé e Caridade banharam Ajne. A água lavava as dores e levava qualquer resquício de materialidade. Já não era envoltório. Livre do casulo que nem sabia ter. Ajne era quem sempre deveria ter sido, A Fada. Elas, as três Graças, trouxeram mais música à correnteza que cantava.


3 comentários:

Fernanda disse...

Por enquanto eu preciso só dizer uma coisa: o que mata é o suspiro quebrado.
Quando a gente guarda isso no peito, solta e ele se quebra, é como armação de pipa.Perde consistência e resistência, e nenhum pensamento voa mais.
Eles pousam, e quando a gente vê, pesam no choro.Tornam ele mais doído.
Mas aí é como tempestade de verão.Chove e depois vem a bonança.
Ai, o suspiro quebrado!

Helisson_Costa disse...

Cara, talvez esse seja o monologo mais profundo que eu tenha lido, vc vai lendo e imaginando cada passar cada movimento e acaba por se envolver quase que tomado pelas mesmas sensaçoes da personagem.

sam drade disse...

sabia q eu tirava cartas de baralho cigano?

.DDD